Virginia’s Eyes

I looked in Virginia’s eyes
Just before she died
She was so tamed by freedom
Her skin was so soft.
She was a little bit cold
I want to feel that.
I want to die as I came
Naked drowning in water
And a little bit of cold.

I looked in Virginia’s eyes
I felt all those birds
They were pecking at her chest
I felt her breath so sweet
Her fear was almost gone.

Sometimes there’s no fear left in me either.
I looked at her eyes once more
We kissed as she sunk weightless
Luminous.
Homebound.

Why can’t you see…

the grass is greener on our side.

Wanting to Die by Anne Sexton

Since you ask, most days I cannot remember.
I walk in my clothing, unmarked by that voyage.
Then the almost unnameable lust returns.

Even then I have nothing against life.
I know well the grass blades you mention,
the furniture you have placed under the sun.

But suicides have a special language.
Like carpenters they want to know which tools.
They never ask why build.

Twice I have so simply declared myself,
have possessed the enemy, eaten the enemy,
have taken on his craft, his magic.

In this way, heavy and thoughtful,
warmer than oil or water,
I have rested, drooling at the mouth-hole.

I did not think of my body at needle point.
Even the cornea and the leftover urine were gone.
Suicides have already betrayed the body.

Still-born, they don’t always die,
but dazzled, they can’t forget a drug so sweet
that even children would look on and smile.

To thrust all that life under your tongue!-
that, all by itself, becomes a passion.
Death’s a sad Bone; bruised, you’d say,

and yet she waits for me, year after year,
to so delicately undo an old wound,
to empty my breath from its bad prison.

Balanced there, suicides sometimes meet,
raging at the fruit, a pumped-up moon,
leaving the bread they mistook for a kiss,

leaving the page of the book carelessly open,
something unsaid, the phone off the hook
and the love, whatever it was, an infection.

Verão, Outono

Esta dor é tão boa para mim.
Tão preciosa.
Cava buracos no meu ventre
revolve a minha terra.
Palpita cheia de braços,
hélice flácida
a chapinhar no meu sangue.

Esta dor espreme-me
como a uma esponja
com mãos gordas de lavadeira.
O seu toque é quente
faz o leite escorrer dos meus seios.

Esta dor mata um pouco de mim
sem pedir permissão duas vezes.
Ruge nas minhas vísceras
como mil homens enlouquecidos.
Incha-me como um balão
perfura-me com afecto.

Engravida-me com casulos vazios
dourados doridos cintilantes
Tudo para todos desfazer
numa chuva profusa
apoteótica.

Ten Thousand Lines

They’ve got your name
They’ve got your number
They’ve got your hopes, your dreams, your future
They’ve got your loved ones by the throat
And soon enough they’ll let you know.

And I’ve learned enough to keep my mouth shut
I’ve learned enough to watch my back
And I’ve learned enough to become wallpaper
And blend in with the cracks.

by gavin worth

Amo-te

 

acordei amando-te tanto
com as mãos tapei os nossos umbigos.

Desire by Norman Lindsay

Shh…

Cortas-me como lenha, depois espanta-te ver-me sangrar.
Dizes: calma, calma, calma.
O teu veneno está na tua força. Pisas-me.
Depois espanta-te ver-me no chão.
Dizes: respira…
Grito como se parisse, como se morresse, como se implorasse.
O teu olhar é vazio, a tua voz olha para as horas.
(Tens sempre outro lado onde estar.)
Este é o teu modus operandi
Abres-me ao meio e chamas-me fraca.
Fazes-me chorar e dizes shh…
Matas-me e dizes que me amas.

Não te vejo neste momento, há florestas entre nós.
Há armas e medo. Maldade.
Ainda ontem te embalei, durante horas.
Entoei sons bárbaros de tristezas remotas, amor enlouquecido.
Plantei na tua boca o melhor néctar.
Orquestrei no teu corpo as melhores melodias.
…A porta bate.
Foste.
Tens mil passos pela frente.
E eu preciso de juntar estes cacos
de Tudo.

A Despedida

Agora já estou cansada e feita em fumo, agora já te posso dizer a ti, só a ti, com as pontas dos meus dedos dourados, que vais estar sempre na minha poesia.
O que seria de mim sem as badaladas a meio da noite, sem o medo da mente e das vozes do seu passado? Que seria de mim sem a melancolia?
Eu sou feita de pesadelos, dentro de mim chove sempre. Com abundância e afecto. O meu chão é farto e enlameado; o meu céu cinzento, a soluçar.
E tu – musa eterna das minhas apoquentações, meus esquentamentos, minhas páginas de diário mastigadas; tu vens e dizes que me esqueceste. As minhas asas tremem.
Não tenho onde te colocar senão aqui, nas folhas de papel. Sei que vou escrever-te sempre. (Mal sabias tu que havias de nascer mil vezes e sofrer mil mortes pelas minhas mãos nestas folhas).
Estou condenada a viver contigo. Depois de tudo tu terás esquecido o meu nome, mas eu continuarei a pingar o teu em gotas negras de tinta. Inapagáveis.
Eu terei sido uma brisa de seda momentânea que em tempos te atravessou os lábios. Mas tal como todos os que se impregnaram da minha alma, tu serás eternizada na minha luta para a reconquistar.

The Wrong Nail

Uma pin-up por Gil Elvgren

A Barriga

We must go inside the belly of the whale for a while. Then and only then will we be spit upon a new shore and understand our call.

Richard Rohr

O Render da Guarda

Se chovesse neste momento, eu podia adormecer.

L’après-midi d’un faune

Debussy – Prélude à l’après-midi d’un faune

Afternoon of a Faun por Norman Lindsay

I adore it, the anger of virgins, the wild
Delight of the sacred nude burden which slips
To escape from my hot lips drinking, as lightning
Flashes! the secret terror of the flesh:
From the feet of the cruel one to the heart of the timid
Who together lose an innocence, humid
With wild tears or less sorrowful vapours.

Excerto do poema L’après-midi d’un faune por Stéphane Mallarmé

Fuck – The Documentary

http://www.imdb.com/title/tt0486585/

Um Sonho

Como a mente é veloz. Viaja sem qualquer paixão entre futilidades e clarividências, como um pedaço de poeira deslizando pelos degraus de uma escada. Nunca fomos ensinados a ficar.
O mesmo sucede com os sentimentos; caem dentro do meu peito como confetti. Centenas de cores fugidias que não estou destinada a tocar. A minha respiração agita-se; e se as alcançasse? O que aconteceria se eu pudesse mergulhar em cada emoção que chovo?…

Em primeiro lugar dir-te-ia que te amo. E que era capaz de caminhar durante dez vidas para poder ver-te como uma gota de chuva te vê, ou um pássaro, ou um pedaço de madeira cortada ainda a sangrar. Sem véus enganadores, sem promessas de sabedoria. (Sussurrar-te-ia imprudências assim, e sem temer coisa alguma.) Dir-te-ia, não tenhas medo. Aonde vamos, já estamos.

E em segundo lugar não tornaria a abrir estes olhos; nada do que procuro se encontra fora de mim.

​Como a mente é lenta. Posso viver mil anos em busca do meu nome e no fim ver tudo o que significo no reflexo de uma chávena ou num sonho acidental. Posso encontrar a verdade cósmica no meu próprio diário. Posso acordar um dia, acordada.

1941

“Dearest, I feel certain I am going mad again. I feel we can’t go through another of those terrible times. And I shan’t recover this time. I begin to hear voices, and I can’t concentrate. So I am doing what seems the best thing to do.
You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don’t think two people could have been happier till this terrible disease came.
I can’t fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can’t even write this properly. I can’t read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that – everybody knows it.
If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can’t go on spoiling your life any longer.
I don’t think two people could have been happier than we have been.

V.”

Reason to stay


A Manga

A mãe disse-lhe que não tivesse medo, enquanto alisava com as mãos gastas o tecido da sua saia azul. A rapariga tinha catorze anos e ia a baloiçar como se fizesse parte da bagagem.
Fora da carruagem o céu mostrava-se cinzento e enraivecido, com zonas particularmente tensas. A rapariga pensou em bocas cheias de água, inchadas, prontas a cuspir golfadas para cima dela.
A mãe disse-lhe que quando chegassem, o homem ia pedir-lhe que comesse uma manga. A rapariga nunca tinha visto uma manga. A mãe agarrou-a com força e disse:

Seguras a manga com as duas mãos.
Tens de circundar a polpa apertando-a desejosamente, para que o sumo caia gracioso e obsceno por entre os dedos.
Tens que beber esse sumo; procura-o com a língua, fintando os nós dos teus dedos. Chupa a manga com a boca inteira, e mãos e lábios e cabelos e ombros. Tira-lhe todo o suco, com trabalho e persistência.
E não deixes nunca
nunca
nunca
que se esgote a tua sede.

A carruagem desapareceu num horizonte monótono. À janela balançava docemente a rapariga de olhos fechados. Mastigava o interior da sua boca, sabendo que em breve esqueceria o sabor do seu próprio sangue.

Carried Away




Escuridão

There are many who dare not kill themselves for fear of what the neighbours will say.

—Cyril Connolly

My Left Foot

http://www.imdb.com/title/tt0097937/«An immensely affecting experience.»
Desson Howe, The Washington Post

Quantos de nós

Para onde vão as almas das borboletas que morrem a baloiçar sobre as pétalas de uma flor?
Para onde vão as almas dos mafiosos fuzilados em caves escuras, cortados em postas, arrumados em malas?
Para onde vão as almas dos suicidas?
Para onde vão as almas dos imperadores que morrem de tosse, esqueletos podres sentados em tronos de ouro?
Para onde voam as almas das raparigas que morrem no topo de um orgasmo? O espírito sobe ao céu por entre os lábios entreabertos.
Onde chegamos quando pisamos a beira da Luz?
E quantos de nós são deixados para trás?

The External World (Filme de Animação realizado por David O’Reilly)

Oh Land – Wolf & I

És feita de quê?

Quero que te deites na minha cama, cheia de asas e caracóis, cheia de dentes e contos de fadas. E estende no lençol cor-de-rosa os teus pés de andorinha; conta-me o teu passado. Chora a tua vergonha na minha almofada (eu ainda sei lamber feridas).
És tu, mas és feita de quê? Algodão doce debaixo de chuva. Açúcar que tremendo se torna seiva, dançando se torna pó.
És tu, mas és feita de quê? Qualquer coisa proibida que faz arder o corpo. Sobes pelo meu nariz e agarras-me entre as pernas.
Eu sei quem tu és. Não precisas de responder. Podes simplesmente entrar.

The Best Cigarette by Billy Collins

Walking Around (por Pablo Neruda)

It so happens I am sick of being a man.
And it happens that I walk into tailor shops and movie
houses
dried up, waterproof, like a swan made of felt
steering my way in a water of wombs and ashes.

The smell of barbershops makes me break into hoarse
sobs.
The only thing I want is to lie still like stones or wool.
The only thing I want is to see no more stores, no gardens,
no more goods, no spectacles, no elevators.

It so happens that I am sick of my feet and my nails
and my hair and my shadow.
It so happens I am sick of being a man.

Still it would be marvellous
to terrify a law clerk with a cut lily,
or kill a nun with a blow on the ear.
It would be great
to go through the streets with a green knife
letting out yells until I died of the cold.

(…)

That’s why Monday, when it sees me coming
with my convict face, blazes up like gasoline,
and it howls on its way like a wounded wheel,
and leaves tracks full of warm blood leading toward the
night.

And it pushes me into certain corners, into some moist
houses,
into hospitals where the bones fly out the window,
into shoe shops that smell like vinegar,
and certain streets hideous as cracks in the skin.

There are sulphur-coloured birds, and hideous intestines
hanging over the doors of houses that I hate,
and there are false teeth forgotten in a coffee pot,
there are mirrors
that ought to have wept from shame and terror,
there are umbrellas everywhere, and venoms, and umbilical
cords.

I stroll along serenely, with my eyes, my shoes,
my rage, forgetting everything,
I walk by, going through office buildings and orthopaedic
shops,
and courtyards with washing hanging from the line:
underwear, towels and shirts from which slow
dirty tears are falling.

Traduzido para o inglês por Robert Bly. Versão original em espanhol.

O Silêncio e a Mentira

Por vezes é tão estranho encontrar o silêncio. Ele pode espreitar por entre duas páginas de um livro, ou está no pó de que é feita a luz da manhã. Olho em volta e tudo está coberto de silêncio, como se cumprisse uma promessa feita muito antes de eu ter nascido. Como dizê-lo?… Todas as coisas estão caladas. Caladas de dentro para fora. As árvores, o chão, os pratos, as cinzas amontoadas. Carregam um Nada tão profundo que expressa Tudo.
Em certos momentos, páro e noto; há silêncio também dentro de mim.
Mas isso é raro. E regresso sempre ao embalo do trovejar da minha mente.
E sou escrava impotente de uma mentira que já desmascarei.
“A realidade é apenas uma ilusão, ainda que muito persistente.”

.

Tenho cartas para queimar.

On a train with a coyote ghost by Basia Konczarek

O Bebé

Vejo o meu bebé do outro lado do quarto. Sei que é o meu pela forma de fixar os olhos, assombrada e indefesa. O mundo entra destravado por aqueles olhos adentro.
Corro na sua direcção. Digo à moça que o está a amamentar «Quero o meu bebé de volta.»
Ela vira-se, vazia dentro dos olhos escuros.
«Dá-me o meu bebé.»
Uma voz atrás de mim arrepia-me – «Esse bebé já não é teu.» Reconheço a voz.
Eu digo «Não, eu quero-o.»
Ela repete «Já não é teu.»
Eu lembro-me do dia em que tive o meu bebé, numa casa fria. Uma casa qualquer, já não sei. Ela esteve lá e tomou-o nos braços. Havia sangue no chão. Eu estava a tremer. Ela saiu depois de me deixar um saco cheio de cristais. Eu abri com uma mão a gaveta da mesa-de-cabeceira, procurei lá dentro o cachimbo. E fumei ali, ainda assim, cheia de sangue e de água. Cheia de dores e de febre.
E agora ela diz-me que o bebé já não é meu. Está nos braços de uma pessoa sem alma, sem amor nos olhos, uma máquina amamentadora. Um gigante seio negro na boca do meu bebé. E esta sombra nas minhas costas que me recuso a encarar; a mulher-abutre que embalou o meu bebé para longe antes que eu lhe pudesse tocar.
Choro. Eu mesma sou um bebé. As minhas mãos são pequenas e gordas. As minhas pernas são bambas e os meus pés fintam-se. Caio.
O meu corpo está cheio de veneno, o meu leite está podre, mas eu quero dar de beber ao meu bebé. Puxo-lhe o braço, ela afasta-o de mim. O bebé não me olha, parece estar em transe. Nasceu envenenado.
«Ninguém vai querer este bebé!» digo. Digo, «Este bebé está doente!»
Ela diz «Para alguma coisa há-de servir.»
O sangue congela na minha cabeça. Penso em todas as coisas que vão acontecer ao meu bebé. Penso em grandes membros forçando-se na boca pequenina do meu bebé. Penso num cheiro conhecido, e dói. Começo a gritar.
«Dá-me o meu bebé!» Arranco-lhe o bebé dos braços e ele começa a chorar. Corro. O bebé está suspenso entre o meu braço e a minha cintura. Tenho medo de o matar. Corro veloz como uma leoa, uma leoa curvada, doente, a tossir merda.
Corro até ao fim da rua e até ao fim da estrada. Eu e o meu bebé.
Dia após dia com o meu bebé.
Prová-lo, dar-lhe nomes, chorar com o meu bebé.
Apertá-lo contra o meu peito, respirar com o meu bebé.
Aquecê-lo no meu casaco.
Morrer e levá-lo no bolso.

Londres

Hoje vi uma senhora com um lindo vestido de gala.
Ela tinha um requintado chapéu preto com uma rede sobre os olhos.

Ela estava no Burger King.

Lamentações

Respiro.
Abro mão.
O valor de um amor nunca está em nós,
mas nas garras desleixadas dos outros
crianças
cobardes
desleais.

Espera
diz a voz da minha avó
leve como seda
ao meu ouvido
espera que o sabor
de uma traição
– e os seus ramos perfurantes
– e os seus frutos encarnados
lhes ensine
o negro
o silêncio
o
NÃO
o MAIS NÃO.

O meu amor está sempre nas garras dos outros,
digo à minha avó
ela flutua como um anjo
olha-me com tristeza
e diz
arranca-o
arranca-o de volta.

A Woman Under the Influence

http://www.imdb.com/title/tt0072417/

«In all of Cassavetes’ films, A Woman Under the Influence is the one film that narrows in on American family life and eviscerates it.»

Paul Brenner – Filmcritic.com

Regresso a Casa

Voltou tudo. Tudo ao mesmo tempo. A minha escuridão, minha casa.
É espantosa a velocidade com que aparece; parece viajar à boleia de sonhos. Basta uma noite e estou trancada nos bons velhos tempos.

Assaltam-me visões hipnóticas. São como o canto de uma velha sereia, tricotando os seus longos cabelos brancos. Fala-me de cordas que me estrangulam piedosamente até ao esquecimento. Fala-me da cor do meu sangue, lindíssima sobre este chão apodrecido. Seduz-me com a promessa de nada e de tudo à distância de um fechar dos olhos. Inebriada pergunto, porque não?

Voltou tudo para mim. Está na minha mente, no meu peito, no meu colchão. Está na água que bebo e na comida que como, por isso decidi ficar em jejum. Mas depressa as pernas enfraquecem e eu deixo-me cair numa cadeira a sonhar com a minha própria ausência. O fim de todo o som e atrito.

Hoje foi um dia especial. Horas de agonia e horas de lassidão. A dor é fiel, consistente; não me falha. Mas o meu estômago… um matagal de espinhos assassinos. Chega-me o sabor do sangue à ponta da língua. Danos colaterais.

Se a minha morte fosse indolor… para todo o mundo
Se eu encontrasse um pouco de crueldade nestas mãos para o fazer
Se eu escutasse a melodia certa
Talvez eu desse a todas as histórias que vivi
um final
feliz.

A Mermaid by Waterhouse

Os Guerreiros Custam a Parir

Braços mergulhados na barriga da minha mãe
amarraram o meu tornozelo com uma corda
apertaram e puxaram até eu arroxear
as minhas costas curvaram-se numa primeira vénia.
Para sair fiz caminho com um punhal de madeira
no lugar da vagina ficou-lhe uma porta
recortada nela uma estrela
onde mais tarde nasceram flores rafeiras.
Os guerreiros custam a parir
vêm rugindo velhas maldições ciganas
vêm chorando o sangue dos esquecidos
vêm sujos da terra, limpos da terra.

Eu podia mostrar-te a que cheira uma mulher
dar-te a provar a ponta da minha espada
dar-te a beber o leite dos meus lábios
enterrar em ti sementes que devoram carne.
Uma verdadeira fêmea nunca lava as mãos
memoriza esta reza que te concedo
ela tem pomares subterrâneos
ela está recheada de frutos
– DEIXA-OS CAIR. -
Eu podia cobrir-te de lama
amar-te num altar de sacrifícios
chamar-te criança e chamar-te pó
puxar as tuas mãos contra o meu escudo.

Mas abençoado com sangue fervente
um guerreiro nunca adormecerá ao teu lado
as noites são tempo de rezas, de ritos
de lavar as chagas com vinagre branco.
Sobre o teu corpo nu, o morno da sua armadura
na saliva da tua boca, o sangue do seu punhal
vais sentir as suas garras
tatuando a guerra nas tuas costas.
Se traíres um guerreiro vai-te cair o chão
o Inferno não é tão amável como dizem as escrituras
a culpa tem um sabor sintético destruidor
mata a única parte de ti que merece amor.

Se eu tivesse mãos

Se eu tivesse mãos, tocava em mim o dia inteiro. Passava as mãos pelos meus cabelos, pelo meu pescoço. Demorava-me naquelas zonas das costas que Deus não quis que alcançássemos.

Mãos, dedos. Que procuram, que perguntam. Que se dobram e se cruzam, que sentem e que perturbam.
Se eu tivesse mãos, aprendia a tocar piano. As canções mais longas, que contam histórias de afecto e tragédia. Eu martelava nas teclas do piano tudo o que tenho a pontapear-me por dentro.

Se eu tivesse mãos… eu escrevia. Palavras tão largas que seguravam as bordas do mundo, tão corajosas que inspiravam revoluções. Escrevia a imprudência e todas as suas maravilhas. Escrevia o amor e todo o seu cansaço. Desfiava romances às cascatas, sem parar para respirar, porque a vida é tão cheia de sumo.

Se eu tivesse mãos, abraçava um rosto. Brincava com uma língua. Afagava um pássaro.
Desfazia um nó. Erguia um punho. Abria uma fechadura.
Segurava uma criança. Fazia uma fogueira.
Lavava Tudo com água.
Começava outra vez.

What I Will by Suheir Hammad

Praias

Costumas ir aos lugares por causa das pessoas ou por causa dos lugares? Ela respondeu, depende. Ela respondeu, depende dos lugares.
Por exemplo, a praia. A praia não precisa de pessoas. Precisa apenas de si mesma, e eu também.
Perguntei-lhe, tu também apenas precisas da praia ou tu também apenas precisas de ti mesma? Ela respondeu, depende. Depende da praia.

Recordo o tamanho absurdamente grande da cama onde tivemos esta conversa. O tamanho absurdamente grande dos cabelos dela, e Lisboa a buzinar lá fora.
Recordo o café intragável que ela fez. O quão absurdamente me apaixonei. Pelo café.

Alguma vez quiseste tanto uma pessoa, que até o acto de respirar te fazia lembrar dela? Alguma vez estiveste tão apaixonada por alguém, que até o sol reflectido nas tuas pestanas te recordava do seu rosto? Ela respondeu, passa-me o açúcar. Ela respondeu, este café está um nojo.

Tenho quase a certeza de que era Primavera e trovejara durante a noite. E naquela manhã estava um sol brilhante e hipócrita que não aquecia os pés.
Ela levantou-se, despenteada, consciente da sua beleza estupidamente desmedida e impossível de absorver num só olhar. Sentou-se na sanita com a porta aberta a ler Tolstoy. E recordo perfeitamente a sensação que tive naquele momento, o sabor do café na boca, as pernas infinitas dela, a cama. Não me lembro de quem era a cama. Mas não importava, porque era tudo nosso e no fim ela levou tudo.
Lembro-me de, uma vez, ela me dizer: «Gosto tanto de ti como se fosses segredo». Foi a coisa mais linda que já me disseram, e por isso não acreditei.
Também me lembro que tínhamos um pássaro idiota que tinha o nome de um filósofo qualquer. Nunca se calava, o maldito bicho. Eu soltava-o sempre da janela, e não sei como, ele voltava. A ela, dizia-lhe que ele fugia. E sempre que ele voltava era “o nosso pequeno milagre”.
Quando ela se foi embora, agarrei no pássaro e fui soltá-lo a um parque. Nunca mais voltou.

E já te aconteceu prenderes-te tanto a uma pessoa que a cada segundo morrias na imensidão dos seus gestos? Já apertaste a mão de alguém com tanta força que ela teve de te deixar cair? Ela respondeu, eu não deixo. Eu não te deixo cair.

No dia em que ela fez as malas tinha posto um vestido vermelho, lembro-me bem, não foi assim há tanto tempo. Lembro-me de a espreitar por entre as lágrimas, de vislumbrar uma última vez a sua pele perfeita e cruel.
Agora perdi-me nesta cama enorme, perdi-me e não consigo sair. Mas vou soltar-me destes lençóis e respirar de novo.
Saio de casa. Espero que o meu andar não pareça hesitante, nunca tenho noção destas coisas.
Quero dizer-lhe tanto.
Quero dizer-lhe que só ela dava sentido às minhas praias. Quero que ela saiba que sempre me guiei pelos seus cabelos para encontrar a saída da cama. Desejo contar-lhe que via o seu rosto no sol reflectido nas minhas pestanas. Que ela não devia ter-me deixado cair. Que o café dela é péssimo.
E vou dizer-lhe isso tudo, e pedir-lhe que se venha deitar comigo outra vez, depois de lhe devolver o estúpido do pássaro que ontem à tarde me voltou a entrar pela janela, triunfante.

19-06-06

Bond

I hold this to be the highest task for a bond between two people: that each protects the solitude of the other.

Rainer Maria Rilke

A Primeira Morte

Despi-me pela primeira vez para me matar. Com um lenço fiz um laço em torno do meu pescoço. Observavas, salivando.
Através da janela eu vi o céu, negro de fumo e glória. Os prédios reuniam-se, gigantescos ciclopes aplaudindo o meu sacrifício.
Com os olhos pedia-te misericórdia, os segundos passavam e as minhas mãos preparavam o meu assassinato.
Silêncio.
Cada segundo uma pedra, cheia de pó, a cair-me no coração.
Tu tocavas entre as pernas uma sinfonia requintadíssima. Olhavas para a minha boca e rugias. Mas eu estava demasiado alta para me foderes; os nós já estavam terminados.
Não disse uma palavra. As minhas pernas pendiam abertas, trementes de terror e excitação. O peso do meu corpo apertava-me o laço. Faltava-me o ar.
Avançaste e lambeste as lágrimas dos meus seios. A pontas dos meus pés procuravam desesperadamente o chão. Questionei-me,
será este o momento?
será esta imagem a última que vou ver?
a tua boca no meu peito a sugar o resto de vida em mim.
este pequeno restinho.
Soltaste um grito.
Desfizeste os nós e puxaste-me. Estaria eu morta? Ainda te ouvia. Mas como se tivesse acabado de nascer; sem conhecer a tua língua.
Essa foi a primeira morte.

A verdadeira inocência é impúdica.

F. Orestano

The Lady of Shallot (by Waterhouse)

The Crunch by Charles Bukowski

there is a loneliness in this world so great
that you can see it in the slow movement of
the hands of a clock.

people so tired
mutilated
either by love or no love.

people just are not good to each other
one on one.

the rich are not good to the rich
the poor are not good to the poor.

we are afraid.

our educational system tells us
that we can all be
big-ass winners.

it hasn’t told us
about the gutters
or the suicides.

or the terror of one person
aching in one place
alone

untouched
unspoken to

watering a plant.

Imprestáveis Devaneios

Quero descobrir a dança sagrada que destrói todos os laços de amor. É disso que eu preciso, preciso, preciso.

Hei-de ser uma fábula contada para adormecer. Hei-de ser uma lápide coberta de folhas mortas. Hei-de ser cinza à boleia do vento, a dispersar-me. Anseio por ser todas essas coisas, mas isto não.
Anseio por não saber amar. Por não conhecer palavras. Por olvidar tudo aquilo que me segura a mim. Principalmente o apego. Principalmente a memória. Porque nada mais me trazem senão frio. Senão esmolas cuspidas na minha mão. Senão retalhos de um mundo que devia ser meu e querer-me. Devia segurar-me junto do sol, fazer-me poeira ou fazer-me anel, recompensar a lealdade de que é feito o meu tecido.

Sei o que devia acontecer mas isso nunca acontece. Porque uma doença dentro de mim se recusa a partir. Qualquer coisa de sublime e proibido. Uma droga a queimar-me as veias; e a doce comichão dos seus dentes a roer-me os braços.

Hei-de ser asas.

Um dia

… vou pensar nisto e rir-me.

Pouco Tempo de Vida

Com pouco tempo de vida, fazem-se listas.
Depois, listas de listas (assim: lista 1, lista 2, lista 3).
Penteiam-se os cabelos.
Toma-se um longo banho.
Aprende-se a rezar.

Com pouco tempo de vida, fazem-se amigos.
Depois buscam-se os inimigos para perdoar.
Varre-se o chão.
Deixam-se umas cartas.
Contempla-se o céu longamente.

Com pouco tempo de vida, acorda-se a dizer adeus.
Ama-se sem coragem. Odeia-se sem paixão.
Os segundos são lâminas que se arrastam na pele.
O pôr-do-sol faz chorar.
A brisa faz cair.
Olha-se para trás e lamenta-se quase tudo.

Procuro um recanto para morrer.
A sós.
O meu corpo cheira a todas as frutas.
Os meus pés pisaram todos os picos.
O meu amor andou por todas as mãos.

Mas morro
mais virgem
do que nasci.

La Belle Rosine

Apagar-te da minha lista

Feito ✓

03 – Dez. – 2004

Ateei um fogo no meu rosto que arde nas vossas compaixões e amores simétricos.
Vocês estão certos.
Mas eu não me vou acertar por vocês.

Limbo

Deixaram-me educadamente sozinha. O meu tempo metamorfoseou-se dentro casulos empoeirados. Dizem que apanhar as penas dos pássaros dá azar; elas roçam-se-me nos tornozelos insistentemente.
Tento ir abrigando o meu peito em rendas de luz. Ninguém me vê. Estou tão rodeada de vida, vida ribombante, inflada, vida apetitosa e colorida, a que não consigo aceder. Estou tão rodeada de histórias, histórias que fazem chorar, histórias que ensinam, que cavalgam, e que simplesmente não sei escrever.
Rendilhada de luz, fecho-me no meu casulo. Estou à espera que a chuva me desfaça.
Este casamento falhado. Este leite azedo. Este beijo tão dolorido. Este vulcão a explodir de penas de pássaros falecidos.
Estou à espera.
Estou à espera.
Estou à espera.

Quero o que está por dentro, dentro de tudo em mim. Por debaixo, por debaixo das fibras infectadas do espírito. Quero o que está encardido, o que está ensanguentado, cego, desmembrado. Quero o que dentro de mim não tem cérebro. O que for apenas feio. Apenas meu. Apenas eu.
Quero esse bolbo essa substância essa vitamina. Quero essa chave. Quero ser aberta ao meio para sempre.
Quero escancarar-me e jamais voltar ao abrigo. Quero doer-me e jamais querer outra dor. Quero sentir-me, chafurdar em mim. E não querer outra merda.

Quero esquecer-me de como foi
aquele limbo de amor tão delicado
onde me foi arrancada a alma.

Quero estar só, só e quebrada,
esquecida e imprudente,
e sem querer de propósito
deixar tudo para trás
conseguindo ver finalmente
tudo à frente.

01-10-08

Twin Sister – All Around And Away We Go

Attenberg




Espera

Não temas; espera.
Porque enquanto o medo for,
tu não serás
porque quando o dia acabar
os pássaros recolherem
e as águas murmurarem
não terás casa
porque mesmo ao sol
verás apenas escuridão
nas searas dançando
verás apenas cinzas
num olhar implorante
verás apenas morte

Não temas; espera.
Porque esperar abre os olhos,
abre portas
porque o amor é um desejo
uma história contada
ilusões insolentes
terás abrigo
porque a chuva que te esfria
dá-te de beber
o tempo que te esmaga
promete
as marés que tudo levam
tudo dão

Espera.
Não temas.

Mesmo Agora

Mesmo agora, consigo escrever cartas ao silêncio, dar-lhe nomes de soldados mortos.
Mesmo agora, consigo encher as mãos com os meus seios, esconder o coração entre os dedos.
Mesmo agora, consigo recordar canções que nunca soaram.
Consigo infernizar as tuas noites com visões.
Consigo ser o passo em falso que se torna dança.
Murchar uma flor já cansada.
Soprar uma arma já disparada.
Mesmo agora.

Para a Susana (Companheiros – Mia Couto)

quero

escrever-me de homens

quero

calçar-me de terra

quero ser

a estrada marinha

que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim

não terei escrito

senão por vós

irmãos de um sonho

por vós

que não sereis derrotados

deixo

a paciência dos rios

a idade dos livros

mas não lego

mapa nem bússola

por que andei sempre

sobre meus pés

e doeu-me

às vezes

viver

hei-de inventar

um verso que vos faça justiça

por ora

basta-me o arco-íris

em que vos sonho

basta-te saber que morreis demasiado

por viverdes de menos

mas que permaneceis sem preço

companheiros

Ji-woo e a loucura-mãe

Acredito que é mais que por vingança que ele te conduz de volta à loucura-mãe. Talvez seja até por amor que ele envenena a tua mente devagar. Ji-woo. Ele quer que grites o seu nome no meio da rua, em camas de homens estranhos. Ele quer que regresses ao veneno que tinhas na boca quando lhe disseste para pensar na outra, para se vir dentro da tua boca pensando na outra, lembras-te?
Ji-woo.
Vais correr atrás da sua sombra. Vais exigir o som da sua voz.
Agarrarás todas as mãos até voltares a sentir o seu calor.
Deitada com outros acreditarás que sentes o seu cheiro. Mas nada feito. Porque a máscara não é mais funda que a pele mas o olhar detém-se, distrai-se, atraiçoa-se. Ji-woo foge.
Queres vê-lo mas irás sempre de encontro a ti. Ele diz: procura-me. Para poderes enlouquecer eternamente. Não por vingança, é amor. Devolver-te ao centro da tua tempestade.
Desejarás voltar ao início, arrancar a máscara com as tuas mãos. Mas aconteceria tudo da mesma maneira, e ele sabe isso.
Descansa, perdeste. Assim podes só amar.

Homem ou Rapaz

Acabou. Mais uma vez. E acabará tantas quantas forem necessárias. Quero perguntar, és já um homem ou ainda um rapaz? Mas antes que eu pergunte o meu corpo corre. És o meu rapaz. E vais sempre ser, ainda que as tuas mãos já não tremam sobre o meu rosto.
Um dia o tempo vai terminar sem que eu tenha feito a pergunta, és já um homem? Quando me quebrares pela última vez, nunca terás sido homem à minha frente.
Amachuco uma última carta. Há tanto para dizer e não me deixas. Vai então.

Being Kind

«So many gods
So many creeds
That wind and wind,
While just the art
Of being kind
…Is all the sad world needs.»

Ella Wheeler Wilcox

História

Era uma vez um dia de tempestade em Lisboa; dentro do velho cinema gotas de chuva caíam sobre cabeças desprevenidas. Ninguém queria saber, porque como dizia o arrumador por entre a dentadura descolada, uma gota é melhor que muitas.
A mulher estava de lilás, e tinha um penteado fora de moda que deixava adivinhar fúteis nostalgias. As pernas frias em meias de vidro, os sapatos encharcados.
Um homem sentou-se ao seu lado, tinha o casaco molhado e cheirava a água de colónia. Ofegava de cansaço, ou de tédio, ou de intenções. Mais que abrigar-se da chuva procurava um pouco de paixão, aquilo que muitos colocam à frente do pão e do abrigo.
Por momentos observou o rosto dela, estava molhado, seria da chuva?
O filme era cheio de silêncios e passos lentos. A mão do homem roçou-se na perna da mulher, de forma subtil o suficiente para se mascarar de engano. Ela não se moveu. Ele não pediu desculpa. Ao olhar o rosto dela outra vez compreendeu, eram lágrimas.
Passados uns momentos a mulher abriu as pernas devagarinho, forçando a saia lilás, esticando as meias de vidro. A mão do homem encontrou o seu caminho debaixo da saia, até onde estava quente. E afagou-a até se escutarem os doces murmúrios de um rio a correr; e não parou até ter a mão tão ensopada quanto o casaco.
THE END.
A mulher levanta-se prontamente e apanha a mala bordada de pérolas. O homem espanta-se, murmura – mas estás molhada…
Ela responde – São lágrimas.

Ser Boémio

… é acerca de poesia.

Não Ter Casa

Quero ir para casa mas não tenho casa.
Quero escrever uma carta mas não tenho a quem.
Quero dizer obrigado mas nada me é oferecido.
Quero dizer estou a ir mas não tenho ninguém à espera.
Quero dizer eu também, mas não escuto palavras de afecto.
Quero dizer tudo bem, mas ninguém chora no meu ombro.
Quero dizer aqui estou mas estou sozinha.
Quero prometer que não vou mas não me pedem que fique.
Quero dizer não me largues mas ninguém me segura.
Quero dar o meu coração mas não há quem lhe pegue.
Quero ir para casa mas não tenho casa.

Na Barriga Da Baleia

Por Marcia Web

Diz-lhe que dance

Diz-lhe então que as amantes são como jardins, extensos como paraísos, e requerem cuidados sem fim.
Diz-lhe que nunca deixe esgotar a poesia nos momentos de paixão, pois o corpo e a alma são uma só máquina, metade magia e metade ilusão.
Diz-lhe que cante, todo o dia e toda a noite, que cante no sono e no choro e debaixo de neve. Diz-lhe que perdoe, incessantemente, antes sequer de algo ter acontecido.
Diz-lhe que ame, e que se perca no seu amor, e que se volte a encontrar.
Diz-lhe que viva, e que a morte é apenas tão certa quanto o nosso medo de nascer. Diz-lhe que dance!

Cross Your Fingers

Cross your fingers, hold your toes
We’re all gonna die when the building blows.

Laura Marling – Cross Your Fingers

O Vizinho

O vizinho demorava-se na janela, a cuspir pequenas argolas de fumo. O prédio dele era em frente, verde, branco, com merda nas paredes. Eu tinha doze anos e o frio da rua abraçava os meus seios, deixava cair a camisa no chão e pousava no parapeito. Horas, a ver as árvores crescerem.
Foram muitos os encontros à distância, eu encostava os meus lábios ao vidro e dois dedos húmidos de vergonhas. Ele jorrava fumo da boca e do nariz, olhava-me silencioso.
Momentos houve em que desejei os seus passos, o som do elevador decrépito, um cheiro de homem e tabaco. O seu fumo a subir-me pelas pernas acima, mais branco que o branco que sou eu, mais fumo que o fumo que sou eu. A sua língua, talvez, e uma barba de pai, a roçar-me nas virilhas, a ameaçar um açoite.
Pousada naquela janela, enrolando nos dedos uma madeixa de cabelo, afastando um fio de ouro da minha avó no qual chupava ansiosamente, perdi a minha inocência, o meu pudor, os meus fingimentos. De longe chegava-me o cheiro de uns braços, de umas mãos grandes como muros para me espicaçarem.

Kind Hearts and Coronets

Sibella – What am I doing?
Louis – You know very well. You’re playing with fire.
Sibella – At least it warms me.

Rapazes

Gosto dos rapazes meigos, com medo no corpo. Gosto dos rapazes gentis, com fome na alma. Não se deve falar de rapazes, mas sim de cada rapaz. No entanto é difícil separá-los dessa aura. Homens, gajos, com promessas nos olhos – feitas a si mesmos.

Sinto os rapazes do outro lado de um rio, a olhar para o que tenho nas mãos. Vejo os rapazes sobre a colina, a polir ferramentas. Sempre despertos, sempre esperando.

Amei rapazes, beijei rapazes, ordenei a rapazes que retornassem ao útero de suas mães. Gritei com rapazes, chorei por rapazes, coroei rapazes como irmãos.

Convivi com rapazes nos seus universos selados, cheios de memórias que lhes oferecem um nome. Segui os olhos dos rapazes sobre as curvas femininas, ou um felino andar, ou uns lábios de cor obscena. Ri-me junto de rapazes, de piadas tropeçantes no absurdo, de remniscências infantis. Fui feliz junto deles sem os tocar, sem os ver quebrar, sem os conhecer.

Sinto os rapazes no fim das escadas, a escutar a melodia dos meus passos. Vejo os rapazes do outro lado de um bosque, sem haver uma passagem. Sempre lá, mas nunca lá.

Corri para rapazes, deitei-me com rapazes, vi rapazes adormecerem.

Amei rapazes, escrevi a rapazes, mas nunca os consegui acordar.

Faz-me Justiça

Faz-me justiça
quando o tempo tiver infectado as histórias
quando eu for pegadas esquecidas no corredor

Faz-me justiça
quando o som da minha voz te soprar memórias
quando a minha ausência aliviar a tua dor

Faz-me justiça
quando eu não for mais que uma fotografia
quando eu for nome sem cheiro nem cor
…apenas agonia
um caco de nostalgia
um estilhaço de amor.

The Cure For Insomnia, Presented by Alfred Hitchcock

Chorar

não basta.

Para o Davide

Quantas vezes já nos perdemos à noite, em passos sincronizados fintando as luzes da rua?
Quantas vezes tecemos palavras, de garrafas meio vazias nas mãos, a combater o frio com murmúrios de ansiedade e amor?

Eu conheço os teus cantos escuros, de poesia e dor. De solidão secreta, cega por holofotes monumentais.
E tu viste os meus cantos escuros, a espreitar por detrás das cortinas lilases que faço ondular para os olhos do mundo.
Momentos existiram em que o meu escuro tocou o teu, e o nosso silêncio foi a nossa Jura. Sim, eu sei quem está aí dentro.

Amar-te é por vezes calar, ver-te partir por caminhos incertos, seduzido por brilhantes frutos e largos sorrisos.
Amar-te é por vezes doer, querer a lembrança de ti nu e desabrigado, para saber que não foram um sonho – aqueles momentos em que o meu escuro tocou o teu escuro.
Amar-te é ver-te por vezes tão longe, dividido entre os frutos e os sorrisos. Sem nada que te levante no ar, me levante no ar, e nos leve para onde precisamos de ir… Onde os nossos olhos vão ver o que se vê do céu e os nossos dedos vão tocar as estrelas.

Seremos o tecido que afaga a rotação do mundo. Amor.

Indolor

O cheiro de cães a arder penetrava-me as narinas. Percorri o corredor do gatil, onde olhos estavam dentro de celas. Onde passos davam voltas sem fim sobre o cimento sujo de fezes e ração. Onde vidas evaporavam no ar como estreito fumo sem razão. Onde vozes eram caladas pelo silêncio da prisão. Onde o tempo ruminava o espaço, os segundos carregavam o esgar da derrota.
O cheiro de cães a arder beliscava-me a pele. O homem que caminhava à minha frente contava-me que tinha afogado uma ninhada. Vacilei, perdi-me, porque eram demasiadas vidas para contar. Os meus dedos tremiam arrastando-se nas grades, os olhares imploravam por uma morte veloz que os levasse a verdes pradarias ou à absoluta escuridão. Porque na escuridão se pode imaginar uma liberdade.
Lá fora, vários cães esperavam para morrer respirando o cheiro dos anteriores. Mesmo nesses últimos momentos não lhes foi concedido o direito da imaginação. Não os quis olhar nos olhos. Fugi do meu coração. Desejei entrar com eles naquele forno e segurá-los até ao último fôlego, embora soubesse que estavam mortos antes disso. Mas quando, questionei-me. Quando se morre?
Talvez tenham morrido dentro das celas, onde sabendo-se invisíveis se coçaram com os dentes até provarem sangue. Talvez tenham morrido na mesa do veterinário, quando uma mão velha de homem os assassinou com uma seringa. Talvez eu os tenha morto quando infiel desviei o meu olhar.

Estes cães foram largados inocentes no meio da rua. Correram durante meia hora atrás do carro que os tinha abandonado, sorrindo meigamente até sucumbirem de exaustão. Estes cães foram amarrados a postes e deixados para morrer. Foram depositados em ninhadas dentro de caixotes, de carrinhos de supermercados, em parques de estacionamento. Estes cães foram “disciplinados”. Foram “ensinados”. Foram “treinados”. Estes cães foram pontapeados.
Entendi o que se passava com o mundo. Temos o Amor em jaulas. Temos o Amor em caixas a dar voltas sobre si mesmo em loucura. Atiramos o Amor para fornalhas em dias pré-marcados nos calendários. Deixamos o Amor morrer depois de o curvarmos com a nossa violência. Partimos-Lhe o pescoço e chamamos-lhe indolor.

The Holidays – Broken Bones

Maçã

Porque não hei-de matar-te, se te posso colher como uma maçã?

O Erro

Seria maravilhoso se pudéssemos amar os nossos erros. Não conheço invenção mais maquiavélica que o sentimento de culpa. É capaz de nos triturar sem que consigamos sequer aprender com as consequências das nossas escolhas.
Seria maravilhoso se pudéssemos amar as feridas. As que inflingimos. Como o degrau essencial para que possamos evoluir. Sabes, neste preciso momento a culpa ata-me os dedos, impedindo-os de escrever. Faz um nó da minha mente, embacia-me o olhar. Mas dentro deste fogo de repressão eu quero dizer. Eu quero falar. Quero que fique escrito.
Abençoado seja o degrau. Abençoado o meu erro. Que me ergue a olhar de frente os horizontes da minha liberdade. Que me transporta de volta para dentro deles e me ensina a não voltar a transgredi-los. Pois deverão apenas irradiar sobre os outros para os libertar também.

Sin Fang Bous – Clangour and Flutes

Howl

(http://www.imdb.com/title/tt1049402/)

«When is a biopic not just a biopic? When, like ‘Howl,’ it’s got poetry in its soul.»

(Newsweek review)

Londres

Inventário

No autocarro:

Duas pindéricas e os respectivos pretendentes. Elas têm unhas falsas e um deles os dentes branqueados, a emitir radiações.
Um senhor de cabelos brancos a segurar numa guitarra. Tem um lindo casaco verde e um brinco na orelha esquerda.
Um gangster gordíssimo envergando um fato de treino em puro plástico amarelo e vermelho. Tem metade de um cigarro entalado na orelha.
Uma senhora preocupada com um saco de flores compradas no supermercado.
Um rapaz africano com trancinhas a emborcar bebidas energéticas para ir para o trabalho da noite.
Uma pseudo rebelde pseudo zangada com cabelo vermelho, nova e certamente num emprego de merda.
Duas mulheres paquistanesas a conversar. Têm as cabeças tapadas com panos brancos e despedem-se chamando-se “darling”.

No andar de cima do autocarro não sei quem vai. Mães com filhos, provavelmente, e pessoas que querem ser deixadas em paz.
Este autocarro é ruas infindáveis, é fusão de ritmos, é suor. Este autocarro é Londres. Com rodas que não se permitem ficar paradas e um motor que trepida para chocalhar todos lá dentro. A tentar fazer de nós um só elemento, uma só corrente.
Mas falha.
Entre nós silêncio. Entre nós memórias de escravatura. Entre nós bandeiras e mapas, senhores e servos. Entre nós paixão que ofusca. Tédio, desprezo, indiferença. Diferentes perfumes com diferentes palavras a dizer.
A diferença prevalecerá. Sem importar que partilhemos uma cidade. Londres é o mundo. E estas pessoas vivem desejando a noite, para poderem sonhar na sua língua.

Epílogo

Não foste o melhor de mim.
Não foste o meu pico de paixão, o orgasmo do meu existir.
Não foste o meu mais belo, o meu mais radioso.
Não foste o auge, o cume, o clímax.
Não foste o mais verdadeiro de mim.
Não foste o mais bondoso de mim.
Não foste o melhor que eu fiz, fui ou vivi.

Não és o amor da minha vida.

A Pêra Que Caiu Nas Minhas Mãos

(Vou deixá-la cair aqui.)

Duas irmãs numa cama fria. Lá fora os sons da noite a rasgar o tempo em retalhos desiguais. O vento, a terra, os cães. Elas estão descalças, e os pés desejam juntar-se numa fricção desesperada para criar calor. Mas o calor não virá, os pés são blocos de cimento gelado, meteoritos caídos para toda a eternidade.
No quarto ao lado os pais ressonam num dueto. Os seus membros estão enterrados no colchão, inflados de sangue e cansaço.
As duas irmãs estão acordadas, no meio do silêncio e da escuridão. E imersas nesse imenso Nada, nesse eco de palavras não ditas, são uma para a outra a única familiaridade. Elas entreolham-se, adivinham o rosto que se esconde por detrás das trevas, dizem: Aqui está uma boca, aqui está uma orelha. E os seus dedos viajam ao longo do rosto, ao longo do peito… Em breve exploram mesmo aquilo que não conseguem adivinhar no escuro, mesmo aquilo que nunca viram.

Fazem amor. Sem possuírem uma palavra. Erguem uma fogueira no desejo de inventar a luz. E avançam em generosas braçadas até à fonte, ao centro, à primeiríssima faísca. Amam-se ao contrário; projectando-se de volta ao átomo-Pai.

Por fim, o sol começa a nascer, arrogante da sua pontualidade. Elas repousam nuas, seios brilhantes de saliva, mãos prostradas sobre os ventres. Regressaram de uma viagem que em breve se tornará segredo. Quando isso acontecer nada neste retrato vai conservar o seu odor. A lembrança vai oxidar, como uma pêra demasiado madura.

(Aqui.)


Touch is a memory – Andy Kehoe

O Leite Com Café

Acordas sempre branda, morna da cama. Os nós dos dedos entram-te nos olhos, empurram os sonhos para o alto da cabeça. Sabe bem mas custa. Faço-te o leite com café, são duas colheres de açúcar. E depois?
Eu não quero abrir a janela, tu não queres que eu abra a janela.
Eu não quero olhar lá para fora, tu não queres sair.
Queremos mergulhar neste leite com café e adormecer afogadas, partilhar sonhos de amor sem manhãs nem anoitecer.
Cais-me no ombro e a chávena dança sobre o teu joelho, ameaça tingir de café o negro dos nossos lençóis. E depois?
Tu não queres que eu volte a acordar-te, eu não quero voltar a acordar-te.
Tu não queres o leite com café, eu não me importo de o beber.
Queremos planar ignorantes do tempo, até que sejamos livres de voar. Para longe.

Willow Tree

Sleep all day
Just waiting for the sun to set
I hang my clothes
Up on the line

When I die
I’ll hang my head beside the willow tree
When I’m dead
Is when I’ll be free

And you can take my body
Put it in a boat
Light it on fire
You can use the kerosene

Take my body
Put it in a boat
Light it on fire
Send it out to sea

Furtiva

Sonho contigo, passageira de uma brisa que não consigo caçar. Sonho contigo a passar de raspão, uma imagem arrastada a esfolar-me as pernas todas.

Conheço-te o cheiro tão bem…

o cheiro dos presentes por abrir.

Em Que Ano Estamos

Não sei em que ano estamos. Já não tenho sequer perguntado. O passar do tempo entedia-me quando não me aterroriza.
Oiço aviões no céu, por cima do meu quarto. Pergunto-me quanto faltará até que as bombas comecem a cair, até que eu comece a acordar sobressaltada com gritos e o cheiro do fogo.
Talvez quando o Mundo estiver prestes a acabar, eu sinta falta de casa. Talvez eu pense, pobre da minha mãe.
Esse aperto tão doloroso de impotência e gratidão, esse desejo de regressar, de redimir, de dizer: afinal sim, afinal não faz mal; quero esse aperto. No meu peito. Mas sei que só chegará tarde demais.
E que me poupem aos condescendentes sermões aqueles que saltaram sobre a minha cabeça quando eu já estava até meio enterrada no chão. Vêm agora dar conselhos e tecer nostalgias aquelas almas cinzentas que eu colori sozinha, com estas mãos. Que eu fiz crescer e nutri, com cuidados de irmã, com devoção de esposa. O que é dar amor senão fazer crescer um fruto que outros colhem e levam?

Oiço aviões. As paredes vibram docemente enquanto os sinto planar sobre mim. Talvez se julguem uma promessa de fim, mas eu ainda estou à espera que tudo comece.
Como são amargas as palavras de um coração doente. Como é feia a desilusão sempre derramada no meu papel.
Mas não quero pena
não quero que me segurem
não quero ouvir arrependimentos
nem quero saber em que ano estamos.

A Leash Of Foxes – Dan May

Fumo

As minhas palavras são o meu fumo. Às voltas, a ondular, uma cascata invertida. O sol bate-me nos olhos vindo de uma longa fresta, ao longe, e fustiga o meu fumegar. O meu fumo começa a definir-se como espaço negativo de uma luz divina. Gaguejo, o fumo é agora bolas transparentes de tosse interrompida. E eu vejo com os meus olhos que se me inclinasse, se erguesse a mão eu conseguia tocar a luz. Eu conseguia penetrar com o meu punho aquele rasgão no tecido da fortaleza. Mas não me inclino. Não ergo a mão. Fico parada a pasmar, admirando os meus fumos. Os seus caprichos, as suas inclinações. A viver numa paixão exarperante pela cortina de seda com que o meu fumo desafia aquela luz, com que ele a contamina e seduz com todas as suas peculiaridades.

Sim, e eu sei. Como ninguém vai nunca saber isto. Como nunca ninguém presenciou estes momentos em que magia acontece entre os meus lábios, na ponta dos meus dedos, no tecto da minha mente. Expirar palavras é como pintar o nosso céu de estrelas privado. É criar, e pensar, isto já foi feito. É inventar, mas saber, a fórmula já estava escrita, algures, antes de alguém a ter descoberto. É olhar para labirintos secretos dentro das coisas, ver de que são feitas. É perder a cabeça, é, enfim, encontrá-la. É ter medo. Escrever é… nascer, com medo.

Mas dentro do medo, paixão. Mas dentro da paixão, esperança. Mas dentro da esperança, o sonho. E dentro do sonho, há fumo.

This Too Shall Pass

Who’s Afraid Of Virginia Woolf

Martha: Truth or illusion, George; you don’t know the difference.
George: No, but we must carry on as though we did.
Martha: Amen.

Obediente

A tua casa tem o cheiro da febre, as tuas palavras são água a ferver sobre a minha testa. Deixas-me quente.
E não sabes, e só to diria entrançado numa música épica, rodeada de órgãos com mil gargantas e tambores desatinando como numa guerra prestes a rebentar.
As tuas vírgulas dão-me arrepios. Da base da minha coluna até à ponta dos meus lábios. A tua voz é sinal para levantar túmulos centenários dentro de mim. A poeira espalha-se em ondas perfeitas, tossimos os dois.
Deixas-me quente. Basta que pressinta os teus passos a uma milha, e entre as minhas coxas derrete-se um vulcão abandonado pela História.
Mas tu não sabes. E só to diria escondida, fora da concha do tempo e do espaço, no meio do escuro, sem som e sem explicação. Pegaria na tua mão e fá-la-ia sentir a minha temperatura; submergir-te-ia neste vulcão entre as minhas coxas.
Pensas nisso quando te aproximas e o meu ar quase te queima? Questionas-te acerca do brilho por detrás dos meus olhos? Algo está a arder.
E queres? Provar esta lava conhecida que no entanto nunca tocaste? Talvez reconheças o cheiro do teu segundo nascimento, porque eu sei, eu fiz-te crescer contra este corpo. E os meus seios ofegaram contra o teu.
Se quiseres andar por mim, enrolo as pernas à tua volta.
Se quiseres respirar por mim, fecho a boca na tua boca.
Se me quiseres ao teu ouvido, eu grito até estar rouca.
Deixas-me quente. Vou ser obediente.


The Definition of Love – by Ryan O’Connell

You can stop taking quizzes in Cosmo. Here’s what love really is.

Love is still wanting to hold someone after you climax. After the initial euphoria from the orgasm wears off, you’re replaced with a sense of calm rather than a panic. You don’t want to search for your clothes, scramble to find your keys and figure out the best way to tell them, “See ya later forever!” You’re fine with chilling out in bed with the person and maybe ordering pad thai later.

Love is unattractive. It can expose our worst traits: Jealousy, irrational fears, heated anger; the gang’s all here! While it can bring out compassion and tenderness, it can also make you behave like the ugliest version of yourself. That can be okay for a little while, but love with real longevity should be like a xanax rather than an adderall.

Love is not afraid to be schmaltzy. There’s a reason why the most popular love songs are so lyrically simple. You can drown it in metaphors all you want but love usually boils down to, “You make me so happy. I want to hold your hand. I just want u 2 be mine 4ever!” You can be a 50-year-old linguistics professor at Columbia University and still find something to relate to in a Mariah Carey ballad if you’re in love because the feelings are so universal. It’s humbling, isn’t it? No matter who you are or what your background is, love can reduce you to Mariah Carey mush.

(…)

Love is getting drunk with your significant other at a party and taking a cab home with your bodies intertwined. You feel safest in these moments, the most secure. Entering a social gathering with someone who loves you is the biggest security blanket. People leave the party as a parade of droopy expressions and sad cocktail dresses. But not you. “Sorry guys, I’m in love! I’m taking a car!”

Love is fucking stupid. Love is fucking smart. Love is about betraying yourself, of compromising your ideals for someone else’s approval. That’s actually the bad kind of love, but I guess it all blurs together when you’re young or when you’re old or when you don’t love yourself.

Love is your significant other telling you about their favorite album and then making a point to fall in love with it on your own. Love is wondering why your better half loves certain things. You think you can find remnants of them in their favorite films, books and songs, but you usually can’t.

Love is finding yourself feeling protective over someone else’s well-being Love is being incensed with rage when someone or something has done your lover wrong.

Love is wanting your partner to cum. And if they can’t, just say, “That’s okay. I’m enjoying this.” It might be bullshit, but they’ll be orgasming in the next five minutes. Trust me.

Love isn’t always marriage. Marriage is spending $60,000 so everyone can know that someone loves you. You know what’s certainly not love? Debt. In some cases, love can be divorce.

Love is a back massage, a mindfuck, a hard cock, a pair of perfect breasts, of feeling unashamed about the cellulite on your body. Love is someone giving a shit about you enough to argue. Love is not passive. Love is “Don’t fucking touch me right now.” Love is “Who the FUCK were you talking to?” Love is sometimes hating yourself for a second. Love is hate. Period. Indifference is the real killer of love and the true antithesis.

When love leaves you, you should be lying on your bathroom floor with no resolve. You’re smoking cigarettes in the bathtub and crying about everything bad that’s ever happened.

Love is someone seeing the beauty in you and wanting to bask in it every day all day. Love is not guaranteed. We are not owed love. That’s why when we get it, we know how lucky we are and hold on to it for dear life.

So, yeah. That’s what love is. Anyone know where to get some?

Opening Night

Relance

Volto atrás no tempo, num relance. Escondo-me num sorriso mas tenho medo de nunca voltar.
Tenho treze anos e estou escondida. A minha casa é ainda a casa dos meus pais. Tu estás ali, à minha frente, e estás a esconder-te comigo.
Está escuro, e murmuramos. Estamos aterrorizados e apaixonados pelos nossos corpos, juntos, selados naquele abrigo de frio e escuridão. Não vemos nada à nossa volta, mas vemo-nos um ao outro com nitidez.
Sentas-te numa cadeira, e eu em cima de ti. E um contra o outro acendemos uma fogueira que começa a queimar o chão… o ar à nossa volta ilumina-se com as radiações. O calor faz ondas como água. Lentamente tudo se torna em fogo, e o desejo e o terror em nós aumentam em igual proporção.
De repente, alguém bate à porta. Com força. Tenho treze anos e estou escondida. A minha casa é ainda a casa dos meus pais. Num relance vejo-me aqui presa. Tenho medo de nunca voltar.

Testamento

Quero o cheiro de velas sopradas a trepar pelas minhas paredes. Reconhecer a cinza no fumo, a morte no aroma.
Quero contar os dias que passei nesta jaula com cortes nos braços. Deixar pingos de sangue no chão. Quero preparar-me.

Sinto uma estranha premonição no ar. De morte. De fim.

No entanto não fiz as pazes, só reuni a lenha para o meu inferno.
Quis tanto amar, e só caí. Quis tanto pousar, e só me estatelei. Quis tanto uma salvação… e é esta. É este cheiro a queimado.
Ouvem-se rezas no ar, vêm da Serra e vão para a cidade – passam por aqui. Empurram-me para o escuro com promessas de deuses. Nunca os vi nem lhes sei obedecer; fico.
Acaricio as paredes por uma última vez. Passo a língua por cada aresta, cada fresta empoeirada. E sei, foi tolice minha acreditar que era mais que isto. Eu sou cimento, eu sou madeira, eu sou pó. Matéria persistente revolvendo-se entre marés. EU SOU MUDA.

E todas as lágrimas se juntam num sorriso. E todas as perguntas se juntam num sorriso. E todos os gritos se juntam num sorriso. E todas as lembranças se juntam num sorriso. E todas as lutas se juntam num sorriso.
Inofensivo.
É o meu testamento.

Tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu

Tenho pensado em ti.

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The Girl from Monday

You had to want in order to be wanted.

You had to be wanted in order to survive.