Inverno

- Faz o que tens a fazer, – foi o que ela me disse.
Ela não fazia ideia.
O chão estava cheio de cacos da noite anterior. Alguns tinham flores de chávenas, borras de chá adormecidas nos seus recantos. Os meus pés estavam descalços, e eu estava novamente acordada para o doce aroma da dor. Ela olhou para o lado, o seu rosto estava lavado.
O primeiro caco encontrou-me perto do calcanhar, aguçado nas pontas, arredondado na base. Senti o frio da loiça entre o quente do sangue.
O segundo caco quebrou-se debaixo do outro pé, soou um pequeno estalo. Ela virou-se, sobressaltada. Viu-me começar a levitar sobre a pequena poça vertida pelas pontas dos meus pés. Trocámos um olhar. Ela estava zangada.
– Sai JÁ daí! – gritou, e começou a puxar-me pelo vestido mas o meu corpo não se desviava, suspenso sobre o chão, coberto de gelo. Lentamente, eu continuava a subir.
Olhei para baixo e vi que ela tinha pisado o meu sangue, desejei que pisasse também um dos meus cacos, para que pudesse subir comigo e congelar-se comigo neste ninho invisível. Ela deu um pontapé aos cacos para os afastar. Agarrou-me os tornozelos.
– Pára com isso IMEDIATAMENTE! – ela chorava mas eu sabia que não eram as lágrimas certas, caíam cheias de cores douradas e orgulhosas, ela continuava zangada.
Decidi esquecê-la por uns segundos, fazer dos seus gritos um som que embalava o meu coração. Tentei até transpirar, e o gelo em torno de mim começou a derreter-se.
Olhei para baixo e vi-a, estava cansada, as gotas caíam-lhe na cabeça. Ela fitou-me cheia de medo e desespero. O meu gelo desfez-se numa farta chuva sobre os cabelos dela, a sua cara, as suas mãos. O meu corpo descendeu elegantemente, as minhas pernas tremiam de dor. Os meus pés golpeados encolheram-se numa onda de agonia ao voltarem a tocar o chão. Vomitei um monte de água. Deixei-me cair.

Lá fora os pássaros cheios de frio roçavam-se contra as árvores cheias de gelo.
Lá fora os carros cheios de neve rugiam contra as estradas cheias de neve.

A Change Is Gonna Come

Virginia’s Eyes

I looked in Virginia’s eyes
Just before she died
She was so tamed by freedom
Her skin was so soft.
She was a little bit cold
I want to feel that.
I want to die as I came
Naked drowning in water
And a little bit of cold.

I looked in Virginia’s eyes
I felt all those birds
They were pecking at her chest
I felt her breath so sweet
Her fear was almost gone.

Sometimes there’s no fear left in me either.
I looked at her eyes once more
We kissed as she sunk weightless
Luminous.
Homebound.

Why can’t you see…

the grass is greener on our side.

Wanting to Die by Anne Sexton

Since you ask, most days I cannot remember.
I walk in my clothing, unmarked by that voyage.
Then the almost unnameable lust returns.

Even then I have nothing against life.
I know well the grass blades you mention,
the furniture you have placed under the sun.

But suicides have a special language.
Like carpenters they want to know which tools.
They never ask why build.

Twice I have so simply declared myself,
have possessed the enemy, eaten the enemy,
have taken on his craft, his magic.

In this way, heavy and thoughtful,
warmer than oil or water,
I have rested, drooling at the mouth-hole.

I did not think of my body at needle point.
Even the cornea and the leftover urine were gone.
Suicides have already betrayed the body.

Still-born, they don’t always die,
but dazzled, they can’t forget a drug so sweet
that even children would look on and smile.

To thrust all that life under your tongue!-
that, all by itself, becomes a passion.
Death’s a sad Bone; bruised, you’d say,

and yet she waits for me, year after year,
to so delicately undo an old wound,
to empty my breath from its bad prison.

Balanced there, suicides sometimes meet,
raging at the fruit, a pumped-up moon,
leaving the bread they mistook for a kiss,

leaving the page of the book carelessly open,
something unsaid, the phone off the hook
and the love, whatever it was, an infection.

Verão, Outono

Esta dor é tão boa para mim.
Tão preciosa.
Cava buracos no meu ventre
revolve a minha terra.
Palpita cheia de braços,
hélice flácida
a chapinhar no meu sangue.

Esta dor espreme-me
como a uma esponja
com mãos gordas de lavadeira.
O seu toque é quente
faz o leite escorrer dos meus seios.

Esta dor mata um pouco de mim
sem pedir permissão duas vezes.
Ruge nas minhas vísceras
como mil homens enlouquecidos.
Incha-me como um balão
perfura-me com afecto.

Engravida-me com casulos vazios
dourados doridos cintilantes
Tudo para todos desfazer
numa chuva profusa
apoteótica.

Ten Thousand Lines

They’ve got your name
They’ve got your number
They’ve got your hopes, your dreams, your future
They’ve got your loved ones by the throat
And soon enough they’ll let you know.

And I’ve learned enough to keep my mouth shut
I’ve learned enough to watch my back
And I’ve learned enough to become wallpaper
And blend in with the cracks.

by gavin worth