- Faz o que tens a fazer, – foi o que ela me disse.
Ela não fazia ideia.
O chão estava cheio de cacos da noite anterior. Alguns tinham flores de chávenas, borras de chá adormecidas nos seus recantos. Os meus pés estavam descalços, e eu estava novamente acordada para o doce aroma da dor. Ela olhou para o lado, o seu rosto estava lavado.
O primeiro caco encontrou-me perto do calcanhar, aguçado nas pontas, arredondado na base. Senti o frio da loiça entre o quente do sangue.
O segundo caco quebrou-se debaixo do outro pé, soou um pequeno estalo. Ela virou-se, sobressaltada. Viu-me começar a levitar sobre a pequena poça vertida pelas pontas dos meus pés. Trocámos um olhar. Ela estava zangada.
– Sai JÁ daí! – gritou, e começou a puxar-me pelo vestido mas o meu corpo não se desviava, suspenso sobre o chão, coberto de gelo. Lentamente, eu continuava a subir.
Olhei para baixo e vi que ela tinha pisado o meu sangue, desejei que pisasse também um dos meus cacos, para que pudesse subir comigo e congelar-se comigo neste ninho invisível. Ela deu um pontapé aos cacos para os afastar. Agarrou-me os tornozelos.
– Pára com isso IMEDIATAMENTE! – ela chorava mas eu sabia que não eram as lágrimas certas, caíam cheias de cores douradas e orgulhosas, ela continuava zangada.
Decidi esquecê-la por uns segundos, fazer dos seus gritos um som que embalava o meu coração. Tentei até transpirar, e o gelo em torno de mim começou a derreter-se.
Olhei para baixo e vi-a, estava cansada, as gotas caíam-lhe na cabeça. Ela fitou-me cheia de medo e desespero. O meu gelo desfez-se numa farta chuva sobre os cabelos dela, a sua cara, as suas mãos. O meu corpo descendeu elegantemente, as minhas pernas tremiam de dor. Os meus pés golpeados encolheram-se numa onda de agonia ao voltarem a tocar o chão. Vomitei um monte de água. Deixei-me cair.
Lá fora os pássaros cheios de frio roçavam-se contra as árvores cheias de gelo.
Lá fora os carros cheios de neve rugiam contra as estradas cheias de neve.







